Mulher viajando sozinha pelo Iran… O que eu estava pensando?

O que posso dizer? Iran foi um das melhores surpresas do Oriente Médio, um segredo bem guardado só para os que se atrevem. De norte a sul é uma infinidade de descobertas, mercados, comida deliciosa, monumentos, paisagens, história, e um dos povos mais hospitaleiros que já tive o prazer de encontrar.

Iran sempre esteve nos meus planos, berço da humanidade, do império Persa, dos filmes e poemas, e da mesquita Nasir al Mosque …. A decisão de fazer a viagem foi ao me deparar com uma foto de um dos lugares mais deslumbrantes que meu olhos tinham visto, se usar a palavra mágico fica piegas? pois eu bem achei que aquilo parecia algo mágico, a foto daquela mesquita colorida e cheia de luz aguçou a minha curiosidade, uma pontada no estômago, as mãos começaram a suar, um pouco aquela sensação de quando nos apaixonamos, pois é, eu sinto isso quando começo a pensar em um novo e inexplorado lugar para conhecer.

Quando contei para alguns amigos sobre viajar para o Iran as reações foram de espanto. 

“Você é muito corajosa”, diziam uns “tem certeza que quer ir para Iran?” “mas porque justo Iran? eles tem terroristas, homens bombas, é muito perigoso, principalmente para uma mulher sozinha” “você é louca, eles não respeitam as mulheres” foram as frases que escutei.

Teve um momento que até pensei - será que sou mesmo louca?”. Mas, já viajando pela Turquia encontrei uma mochileira do Yemen que viajava sozinha, sim, sozinha, e vamos lá quebrando paradigmas. Entre conversas, ela me contou sobre suas viagens e destacou o Iran como um dos seus lugares preferidos “as pessoas são tão hospitaleiras” era o que ela enfatizava. Pelo caminhos esbarrei com outras pessoas, inclusive um brasileiro morando no Egito, que tinham se atrevido a explorar o mundo Persa e os contos eram sempre tentadores e, eu, já estava mais do que decidida.

Para falar a verdade o meu maior medo era o de não conseguir o visto, e também de contar para a minha mãe que eu estava indo para o Iran. No aeroporto da Jordânia, esperando o vôo, eu conjeturava - e se não me deixarem entrar? e se minhas roupas não estiverem corretas? mas, para minha alegria, o pequeno, burocrático e hospitaleiro aeroporto de Shiraz me recebeu muito bem, não que tenha sido rápido, foram umas duas horas entre conversas, apresentar documentos, muitas perguntas de pura curiosidade, manifestações de alegria por eu estar no país, convites para conhecer casa, família, eu já me deliciando com figos e damascos secos que tinham me oferecido, e por fim “bem vinda ao Iran”. Acho que todos os países que entrei esse foi o que senti mais alegria, me senti “foda” por estar ali, sozinha, nada mais emparedados para uma mulher do que explorar o mundo sozinha.

Eu viajei um mês pelo país, de ônibus, só me hospedei em hostel nas duas primeiras cidades, depois foi só Couch Surfing, os iranianos adoram receber e a rede social de mochileiros é muito usada por lá. As rodoviárias são limpas e organizadas, não muitas pessoas falam inglês, mas todas tentam ajudar. O país ainda não recebe muito turistas, mas acredito que isso vá mudar em pouco tempo. 

Se eu me senti acuada em algum momento? não, um dos países mais seguros que já visitei, as histórias que tinha escutado não eram exagero, posso dizer que a gentileza reina por ali, todos tentavam me ajudar de alguma forma, para comprar passagens, taxistas, pessoas no ônibus, nas mesquitas, bazares.

Shiraz e a Mesquita Rosa

Em Shiraz, visitei a mesquita dos meus sonhos, as luzes dos primeiros raios de sol da manhã entram pelos vitrais coloridos, criando um prisma que se mescla com o chão coberto de tapetes persas e pelas paredes com arabescos de todas as cores, mesmo para quem não é religioso a vontade é de meditar, rezar, entrar em conexão com algo.

Além da mesquita, Shiraz fica do lado de Persépolis, a cidade fundada por Xerxés, é incrível estar em um lugar construído ha tantos mil anos atrás. Logo ali perto fica Passargada, aquele lugar onde se é amigo do rei, sim, existe mesmo. Além da mesquita Nassir Al Mosque outra mesquita também me deixou deslumbrada, a principal da cidade, coberta de mini cristais por todos os lados, parecia que estava dentro de um conto das mil e uma noites.

Yazd e Isfahan

De Shiraz eu fui para Yazd, no centro do país, uma cidade antiga de barro, berço da religião Zoroastra. Parece cenário de filme, os labirintos de casas de barro, o por do sol dourado, as casas de chá, deslumbrante.

Dali meu próximo destino foi Isfahan, a terceira maior cidade do país, artisticamente uma das mais ricas, com uma praça impressionante, mesquitas que são pura arte, bazares onde são produzidos e vendidos os tapetes persas e trabalhos em ferro, muitas cores, super limpa e cortada por um rio lindo. Fazia muito frio, a praça estava coberta de neve, tive que comprar mais um casaco, mas tudo era encantamento, até quando eu entendi que fazia -5graus e por isso eu estava congelando.

A Praça de Naqsh-e Jahan faz parte dos patrimônios da Humanidade da Unesco. Isfahan também tem reatores nucleares experimentais, bem como instalações para a produção de combustível nuclear (UCF). Em Isfahan além de ficar na casa de um amigo, fomos em uma festa, conheci seus amigos, a maioria homens e algumas meninas também, dançamos, eles me convidaram para conhecer a cidade, para cafés, almoço, inclusive o chefe do meu novo amigo também queria me conhecer e veio nos encontrar, todos eles muito educados, inteligentes, bem informados sobre o mundo. Umas das mulheres iranianas que fazia parte do grupo de amigos ficou com um mochileiro que se juntou ao nosso grupo e começaram um romance. Ela não usava o lenço dentro de locais privados e todos os rapazes amigos respeitavam e concordavam, aquele grupo de amigos que fiz ali estavam de saco cheio da religião comandando a política e vida das pessoas.

Teerã 

Na Capital Teerã provei a verdadeira hospitalidade persa, quando cheguei na rodoviária para encontrar a pessoa que iria me hospedar e que eu também conheci através do Couch Surfing, ele estava atrasado, estava escurecendo e fazia muito frio, - 5 graus, os motoristas de taxi que estavam parados por ali fizeram um fogo para que eu ficasse aquecida, um casal que vinha no mesmo ônibus decidiu também me acompanhar para que eu não ficasse só, assim compraram chás e bolos e ficaram todos ali conversando, me aquecendo,  por mais de uma hora, só para que eu não estivesse sozinha. Por fim meu amigo chegou, ele teve que buscar a irmã na universidade, ela estuda teatro e ele é diretor de cinema, ambos extremamente cultos, modernos, inteligente e bem educados, me mostraram os cinemas “proibidos”, os lugares onde os intelectuais se encontram,  galerias de arte, bons restaurantes, conheci seus amigos, fiquei muitos dias com eles que hoje são queridos amigos.

A capital persa é uma das cidades mais liberais, moderna em meio a antiguidade, com referencias da arquitetura francesa, cafés "hipsters", casas de chás tradicionais, museus, cinemas, muita cultura, bazares típicos. Uma cidade dinâmica, com linhas de metrô,  muitos engarrafamentos, muita gente pelas ruas.

Além da maioria persa, na capital também habitam azeris, armênios, assírios, curdos e judeus. A religião predominante é o islamismo da seita xiita, eu visitei lindas mesquitas, mas também vi igrejas, sinagogas e templos zoroastras.

 

A cidade é cercada pelas montanhas de Alborz e quando eu visitei era possível ver os cumes cobertos de neve.

Quebrando alguns mitos

Muita gente chamam os iranianos de árabes, pois é um engano, a população iraniana é persa, aquela civilização dos livros de História, de Dário, Ciro e Xerxes.

As mulheres não usam burca, usam um véu para cobrir a cabeça, mas elas abusam do estilo e já não cobrem praticamente nada. Aliás, as mulheres são belas e elegantes, usam e abusam do estilo, de óculos, maquiagem. Sim, existem outras regras religiosas, como cobrir os braços e pernas, que muitas mulheres já não querem mais. No metrô existem vagões exclusivos e foram neles que andei, mas tudo muito tranquilo. Ônibus foi normal, viajei todo o país de ônibus e fui muito respeitada. Vi mulheres dirigindo, trabalhando, indo a universidade, aliás elas são a maioria nas universidades e podem votar. Ainda existem muitos limites, mas é bem diferente dos países árabes. 

Muitas grandes marcas não são encontradas no Iran, como Mcdonalds, Starbucks, Zara, H&M, mas isso só faz com que o país seja mais original de se visitar. Com carros e outros equipamentos modernos é o mesmo, muita coisa antiga. Facebook, youtube e algumas outras páginas também são proibidas.

Bebida alcoólica é super proibida no país, assim como todas as outras drogas. Mas, conversando com amigos descobri que se é possível conseguir bebidas, existem festas nas casas e lugares clandestinos, como no deserto. 

Não achei os iranianos nem um pouco radicais com a religião, ao contrário, a maioria está de saco cheio e quer um país mais moderno, até mesmo os mais tradicionais foram muito tolerantes comigo, me explicaram sobre a religião, mas em nenhum momento me tentaram converter em nada.

Visto - Se pode conseguir o visto de 15 dias nos aeroportos internacionais do país, ou de 3 meses nas embaixadas e consulados iranianos em outros países. Eu consegui de um mês no aeroporto de Shiraz, mas o normal são 15 dias.

Dicas:

Se hospede na casa dos iranianos e faça muitos novos amigos. 

Aproveite a culinária que é uma delicia.

Vá ao cinema! o cinema Iraniano é maravilhoso e rico (aliás um filme iraniano ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2017)